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terça-feira, 21 de junho de 2016

Por Trás do Criacionismo da Terra Jovem 23: Homo "microcefálico" habilis?

Com toda essa onda de casos de microcefalia no Brasil, e sendo esses casos associados por alguns especialistas como tendo sido causados pelo Zika Virus transmitido pelo Aedes Aegypti, decidi fazer um artigo tratando de uma argumentação usada por criacionistas que envolve exatamente isso. Os surtos de Zika? Não... envolve os casos de Microcefalia! E essa argumentação existia bem antes desses casos, e trata-se de um argumento usado para desbancar a evolução humana.

Não é segredo que este é um blog cristão, porém, em tudo devemos usar da verdade, e descartar a mentira. Esse deve ser o proceder de todo cristão, independente da visão criacionista adotada. Todos os outros 22 artigos dessa série - bem como este próprio e os que virão a seguir - tem o propósito de desmascarar os falsos argumentos e fraudes intelectuais usadas em prol da defesa da interpretação da Bíblia conhecida como "Criacionismo da Terra Jovem". Não que essa interpretação venha levar uma pessoa ao inferno ou algo assim, mas ela se sustenta em bases fracas, tanto teológicas quanto científicas, e os seus defensores tentam maquiar isso o máximo que podem, como se "perfumassem um defunto"...

O ARGUMENTO

Primeiro, vamos mostrar o argumento em si. Como recursos visuais sempre são melhores que textos, deixo a palavra com o professor de fisica da Bob Jones University, Adauto Lourenço:



Resumindo o vídeo, o argumento consiste em dizer que o crânio de Homo habilis na verdade não correspondia ao crânio de um hominídeo ancestral, mas sim, ao crânio de um indivíduo portador de Microcefalia... Da maneira que o professor Adauto colocou as imagens, realmente essa impressão ao leigo fica muito convincente, tão convincente aliás, que a primeira vez que vi esse vídeo, quando iniciava meus estudos, fiquei convencido de que o vídeo falava a verdade. Só depois que fui descobrir a verdade por trás desse argumento, e aqui compartilho ela com vocês.

O QUE É MICROCEFALIA?

Para analisarmos esse argumento da forma correta, é necessário aprendermos, primeiro, o que realmente é a Microcefalia. Trata-se de uma doença em que a cabeça e o cérebro das crianças são menores que o normal para a sua idade, o que prejudica o seu desenvolvimento mental, porque os ossos da cabeça, que ao nascimento estão separados, se unem muito cedo, impedindo que o cérebro cresça e desenvolva suas capacidades normalmente.

A criança com microcefalia pode precisar de cuidados por toda a vida, mas isso é normalmente confirmado depois do primeiro ano de vida e irá depender muito do quanto o cérebro conseguiu se desenvolver e que partes do cérebro estão mais comprometidas. Essa é uma doença congênita relativamente rara, mas recentemente ela está se tornando mais comum, e há quem diga que o Zika Virus é o culpado disso.

De qualquer forma, fica nítido que um anatomista consegue saber se o crânio é de uma criança com microcefalia ou não.

COMPARAÇÕES REAIS

No vídeo, o ilustre professor Adauto mostra a comparação entre um suposto crânio de Homo habilis com a cabeça - não o crânio - de um indivíduo adulto com microcefalia. Esse camarada da foto, do interior do Piauí, chama-se pelos íntimos, ao que pude pesquisar, de "Antônio cabecinha", e realmente nasceu com microcefalia. Mas... o que aconteceria se fosse feita uma comparação real entre os crânios...? Será que o crânio do Sr. Antônio e de indivíduos com essa má formação é igual ao do Homo habilis? Vejamos:

Crânio com Microcefalia


Crânio de Homo habilis

Essa é uma comparação de perfil. E se mudarmos o ângulo... será que ficarão iguais?

Crânio com Microcefalia


Crânio de Homo habilis

Mas... e se pegarmos um caso mais acentuado de microcefalia, bem próximo ao do "Antônio Cabecinha"? Será que teremos o mesmo crânio em questão?

Crânio de adulto com microcefalia
Crânio de Homo habilis
Percebeu, aliás, que o último crânio com microcefalia é muito parecido com o do individuo da imagem e, também, é completamente diferente do crânio real de Homo habilis?

Claro, isso é apenas uma comparação de imagens. Mas uma comparação sincera, pois o argumento do Adauto Lourenço também consiste em comparação de imagens... E ela não acaba aqui... Façamos uma comparação diferente... Considere os crânios abaixo:






Aí você me pergunta... "Ok, mas pra quê colocar mais fotos de crânios de Homo habilis? Já vimos que não é parecido com um crânio com Microcefalia!"... Mas quem disse que os quatro crânios acima são de Homo habilis? Os dois primeiros são de Homo erectus, e o terceiro cor de marfim é o de um Australopithecus, ou seja, duas espécies de hominídeos que são válidas na ciência - aqui e aqui tem os artigos que falam mais detalhes de ambos os fósseis - , ou seja, além de não se parecer com o crânio de um indivíduo com microcefalia, o crânio de Homo habilis carrega semelhanças óbvias com outros crânios de hominídeos já achados.

E sobre essa semelhança, tem mais ainda o que comentar: existem cientistas que classificam a variedade de crânios de Homo habilis como sendo, na realidade, ou da espécie Australopithecus africanus ou da espécie Homo erectus. Embora as evidências mais fortes apontem realmente o Homo habilis como uma espécie única, existem estudos bem embasados sobre essa reclassificação. De qualquer forma, isso é o suficiente para mostrar que, de um jeito ou de outro, os fósseis atribuidos a espécie Homo habilis são de hominídeos, e não de indivíduos com microcefalia.

Por fim, eu posso dizer por experiência própria que a similaridade do crânio de Homo habilis com o crânio de outros hominídeos fósseis são reais, porque tenho comigo a cópia autêntica de vários desses crânios de hominídeos, e um deles é a do próprio Homo habilis. E deixei o último aspecto comparativo para uma foto que tirei em minha casa relacionada ao tamanho. Veja em minhas mãos quão pequeno o real crânio do Homo habilis é:



O crânio do "Antônio cabecinha", mesmo ele tendo microcefalia, não era pequenino, mas tinha a dimensão do de um adulto normal. Apenas a caixa craniana que é menor. Porém... o problema em afirmar que o crânio de Homo habilis é de um indivíduo similar ao colega do vídeo também é relativo ao tamanho: o crânio do Homo habilis é do tamanho de um crânio de criança! Veja a comparação do crânio de Homo sapiens (branco), que é a nossa espécie, com o de um Homo habilis (marfim):



E mais: percebeu que as fotos de crânios de Homo habilis apresentam diferenças? Bom, a explicação é simples - e se o Adauto a incluisse no vídeo, estragaria a lógica de seu argumento - : foram encontrados mais de um fóssil de Homo habilis, e em alguns casos são até outros ossos do esqueleto também! Abaixo alguns dos exemplares fósseis de Homo habilis e o nome catalogado dos espécimes:

OH 62 (corresponde a minha réplica)
OH 7


KNM ER 1813
OH 24
KNM ER 1805

UM ESTUDO MAIS SÉRIO

Crânio de Homo Floresiensis de vários ângulos
Apenas com essas comparações de imagens podemos ver que o argumento do professor Adauto Lourenço nada mais é do que uma farsa científica (o quão isso pode ser ruim? Comentarei mais adiante). Mas e quanto a uma análise mais minuciosa, que vai além das comparações e fotos? Que resultados teríamos? A resposta está num caso que envolveu não o Homo habilis, mas sim o Homo floresiensis, mas que pode servir também para enriquecer essa questão da microcefalia no H. habilis... Pra quem não sabe, o Homo floresiensis seria uma espécie de hominídeo achado em 2003 derivada dos Homo erectus, mas que teria sofrido nanismo insular e ficado pequena - comparável aos Hobbits de "O Senhor dos Anéis", o que lhe rendeu esse apelido também entre os cientistas. Mas houve por algum tempo um debate entre os cientistas sobre o status desse fóssil, pois há quem defendia algo muito próximo da alegação do Adauto Lourenço para o Homo habilis: que o indivíduo em questão na verdade era um humano com microcefalia. Ou também poderia ser um indivíduo com Síndrome de Laron ou Hipotireoidismo endêmico. E isso não foi declarado por um físico ou pastor, mas sim por acadêmicos sérios da área. Contudo, os cientistas da Universidade de Stony Brook, em Nova Yorque, fizeram uma comparação tridimensional dos fósseis de Homo floresiensis com outros fósseis de hominídeos achados (o Homo habilis estava dentre esses fósseis) e crânios de humanos comprovadamente com patologias como a microcefalia. Os resultados, porém, mostraram que a mostra se assemelha muito mais aos crãnios de hominídeos em si do que os crânios de humanos com microcefalia. Posteriormente, outros fósseis do H. floresiensis foram achados, como o pé do próprio, e acabaram por sua vez comprovando os estudos desses cientistas, de que o H. floresiensis era uma espécie única.

 Mas... o que esse fato pode agregar em relação ao argumento utilizado pelo Adauto Lourenço?

- Se cientistas se levantaram alegando que o Homo floresiensis pode ser o crânio de uma pessoa com microcefalia, por que também não estenderam a interpretação ao Homo habilis?

- Se o crânio de Homo habilis fosse um crânio de humano com microcefalia, como o crânio dele e de outros hominídeos podem ter sido usados para verificar o status do Homo floresiensis?

- Por que existe a publicação dessa análise em torno do Homo floresiensis e NADA relacionado ao Homo habilis, ao não ser a palavra do professor Adauto Lourenço?



FRAUDE PARECIDA

Por fim, em uma sequência de slides na internet apresentada por um membro da igreja Presbiteriana, foi usado um argumento parecidíssimo com este do nosso artigo. A diferença é que o camarada pegou uma reconstituição artística do Homo erectus em vida - nem é do crânio - e usou o mesmo argumento. E o mesmo "Antônio" também...

A mesma coisa... só muda o fóssil
Como refutar isso? Primeiro: role o cursor para cima e compare as duas fotos que colocamos de H. erectus com as fotos que colocamos dos crânios com microcefalia. Segundo: na comparação com o estudo do H. floresiensis, substitua o nome "Homo habilis" por "Homo erectus", e terceiro, entre nesse link e veja um estudo completo da identidade do Homo erectus...


CONCLUSÃO

Depois de tudo o que foi visto, não tem escapatória: o argumento em questão é uma fraude científica, e das grandes. O crânio de Homo habilis realmente é de um hominídeo fóssil e não é de um indivíduo com microcefalia, muito menos do indivíduo da imagem. Apesar de estarmos diante de mais uma fraude desmascarada - e isso é bom para "abrir nossos olhos" mais um pouco - , ter essa informação em mãos nos dá dois panoramas tristes e complicados a respeito. O primeiro é a popularidade que o Adauto Lourenço conseguiu na mídia gospel. O fato do mesmo ter uma boa eloquência, uma boa oratória, faz com que ele seja requisitado por muitas igrejas e considerado um dos mais célebres cientistas do nosso tempo. E isso não é verdadeiro. Esse argumento fraudulento do "Homo microcefálico habilis" é apenas uma das várias fraudes que ele vem apresentando, muitas delas já abordadas nesse site (como o argumento dos poliestratas, da "evolução ser só uma teoria" e das leis da termodinâmica, por exemplo), e as pessoas estão "idolatrando" essa pessoa como "cientista e homem de deus". Eu não posso julgar a pessoa do Adauto Lourenço - me parece ser uma boa pessoa, tenho que admitir - mas não posso tampar meus olhos para as coisas erradas que têm sido apresentadas por meio dele, e isso pode nem ser má intenção dele - leia "a morte na panela e os erros criacionistas" para entender o que pode estar acontecendo não só com o professor Adauto mas com vários outros criacionistas da mídia nacional e internacional. O outro panorama desagradável acaba sendo o próprio desrespeito com o uso do "Antônio cabecinha". Eu não sei se ele é conhecido do professor Adauto Lourenço nem da pessoa que colocou a comparação com o Homo erectus. Mas pra mim, uma vez que agora mostramos a real identificação do crânio de Homo habilis como hominídeo e não-humano, pareceu um pouco de falta de respeito. A pessoa ou seus familiares autorizaram esse uso de imagem e essa comparação com o crânio de Homo habilis? Fica a pergunta em aberto (se alguém souber a resposta, ficarei agradecido e a colocarei neste mesmo artigo, para atualizá-lo) Finalizo este artigo com as seguintes perguntas:

Se a intenção é mostrar que o homem foi criado por Deus, vale a pena lançar mão de fraude para tal objetivo? Será que Deus se agrada dessa atitude? Será que os fins justificam os meios? Que imagem o cristão que age dessa maneira mostra para os não-cristãos? E como fica a imagem do evangelho diante disso? 
Há algo a se pensar...