sábado, 5 de fevereiro de 2011

Estudando a origem do homem (parte 1)

Nesse blog já foi tratado a respeito da origem do homem, que aliás é uma das mais antigas de nossas postagens. No entanto, a questão nesse artigo foi tratado de forma muito superficial, dando uma margem muito grande para vários questionamentos; aliás alguns desses questionamentos foram respondidos em outras postagens. Portanto, agora será apresentado um estudo bem mais detalhado sobre a origem do homem na perspectiva do Gênesis, cheio de referências e procurando responder todas as perguntas que o artigo "A origem do homem" não respondeu.

ESTUDANDO A ORIGEM DO HOMEM

Muitos séculos e milênios se passaram desde que nós aparecemos aqui, e esse tema mesmo assim ainda é fruto de intensa polêmica. Na área que diz respeito á questão Criacionismo Versus Evolucionismo, por exemplo, talvez seja a questão que mais põe divergência entre as duas ideologias. Parece até que tem que haver dois extremos: ou a visão criacionista (o primeiro homem moldado em uma mistura de argila com água, como um boneco) ou a visão evolucionista (os primeiros humanos surgindo de um ramo extinto de primatas) tem que estar certa; jamais as duas vão estar corretas ao mesmo tempo; isso seria impossível... Mas quem já perguntou se existe tal possibilidade? E se existir?

É certo que muitos erúditos, ao ver o conflito entre o criacionismo e o evolucionismo e as evidências paleontológicas da evolução (que os criacionistas acusam de dados fraudados), acabam se rendendo á interpretação alegórica do livro de Gênesis. Porém, admitir isso faria com que a doutrina cristã perdesse todo o sentido, sem falar também que existem muitas "coincidências" históricas e científicas no Gênesis (para mais veja o estudo "Gênesis - seria tudo um mito?" disponível nesse mesmo blog).

Então, com isso, dá-se a impressão de que há dois extremos, realmente, e ou um ou outro deve corresponder á realidade. Porém, tem uma coisa que quase nunca é levada em consideração nesse aspecto e que só por ela poderemos analisar corretamente a origem do homem: a de que o Criacionismo é uma teologia baseada na Bíblia, não é a própria Bíblia em si. O que isso quer dizer? Que talvez a polêmica criação versus evolução só esteja ocorrendo porque, simplesmente, a maneira de como interpreta-se e imagina-se a origem do homem segundo a Bíblia pode estar errada, e sim, a Bíblia pode ter alguma relação positiva com a teoria da evolução humana.

É estranho alegar isso, mas o fato é que a sociedade adotou uma "visão única" sobre Adão e Eva em Gênesis, visão essa que vem desde o catolicismo e que poucas vezes foi questionada no sentido se de fato era aquilo mesmo que a Bíblia dizia. Mais estranho ainda, porém, é o fato de que existem várias formas de imaginarmos como foi a história de Moisés, Abraão, José, Elias, Sansão, Davi, Noé... porém a forma que se é imaginada o relato da Criação Bíblica do Homem é sempre a mesma! É difícil, por exemplo, imaginar Adão como um homem da caverna para muitos hoje, principalmente no meio evangélico.

E qual é o problema disso? É que essa visão está constantemente em conflito com os dados que a ciência fornece, chegando ao ponto de muitos considerarem a história bíblica como alegórica. Mas isso não quer dizer que a Bíblia esteja errada ou que seja um livro causador de desavenças, porque não é a Bíblia, mas sim a Teologia empregada nela, que batem de frente com a ciência. E, como costumo dizer, "não é a teologia que deve guiar a Bíblia, mas sim a Bíblia é que deve guiar a teologia".

A única coisa que nos resta, então, é reanalisar o texto bíblico, começando a interpretá-lo do zero, e colocá-lo novamente de frente com os dados científicos. Vamos apenas considerar só a Palavra de Deus e as evidências que a ciência fornece sobre a origem do homem, bem com o os fósseis que indicam sua evolução, de primatas simiescos até o Homem.

Antes de mais nada, é claro, joga-se a pergunta: e o que dizer dos argumentos criacionistas contra a evolução? As respostas, muitas delas desagradáveis mas reais, você encontra aqui.

Iniciemos, agora, o estudo sobre a origem do Homem.

GÊNESIS 2,7 E SEU VERDADEIRO RELATO


Para começar, vamos nos utilizar do texto bíblico de Gênesis 2,7. Veja:

Gn 2,7: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.”

A forma como é tradicionalmente entendido esse versículo (forma essa que dificilmente é questionada) é a seguinte: Deus, após ter finalizado a criação dos seres viventes, pegou um punhado de barro do rio, talvez o Eufrates, moldou um boneco de barro sem vida, e assoprou em suas narinas um sopro que fez o boneco viver.

Mas seria esse o sentido original?

De acordo com muitos teólogos cristaos, sim. Segundo estes, o espírito de vida (na tradução literal do texto, que em hebraico é Ruah ou Neshamah) de Gênesis 2,7 seria a vida física; sendo assim, teríamos a seguinte "equação":

Pó da Terra (corpo) + fôlego de vida (espírito) = Alma vivente.
Pó da terra - fôlego de vida = cadáver - sem vida.

Ou seja, um corpo sem vida que teve vida. No entanto, admite-se que o que faz o homem ser á imagem e semelhança de Deus é justamente esse espírito de vida... E aí que entra em uma questão contraditória, pois se o espírito soprado por Deus no homem é a fonte de toda a vida e o mesmo de todos os animais (conforme seria dito em Gênesis 7:22; Eclesiastes 3:19); isto quer dizer que este alento não pode ter sido algo inteligente, pois se o fosse, o fôlego de vida dos animais (o espírito) teria de ser algo racional também, e não é isso o que acontece. Nesse sentido, o homem não teria uma alma, mas sim seria uma alma. Essa contradição lógica é utilizada pelos Testemunhas de Jeová, inclusive, para combater a doutrina da alma e do espírito. Em outras palavras, considerar a equação "Pó da terra - fôlego de vida = cadáver - sem vida" acaba por desencadear numa situação contraditória, onde teria que se admitir que espiritualmente o homem e o animal seriam iguais (conforme diz Ecl 3,20, o homem é igual aos animais na origem física: pó da terra).

Mas, então, vem a pergunta: Como desvendar o que Gênesis 2,7 quer dizer?

Na verdade, como este é um assunto relacionado ao Antigo Testamento, é certo que podemos conseguir informações mais perto da realidade se analisarmos a literatura hebraica original (como o Thorah ou até mesmo o Thalmud) e os termos do original hebraico sobre essa passagem.

Mas antes, temos que entender que, querendo ou não, o homem na anatomia material é um animal, e o próprio Salomão alegou isso (Ecl 3,28). Não é nada anticientífico admitir isso. Observe: Anatomicamente, o corpo humano parece de fato estar relacionado com formas de vida menos complexas. Muitas das enzimas que controlam as funções humanas são réplicas quase perfeitas das encontradas em outros filos, ou reinos. O gene que controla o posicionamento e a orientação do braço humano é encontrado em todos os vertebrados e também nos insetos. A semelhança é tamanha que quando porções deste gene humano são implantadas no genoma da mosca drosófila, determinam o posicionamento e a orientação da asa da mosca. O mesmo serve para os genes que controlam o desenvolvimento do olho e um grande número de outros. Estes genes têm mais de cem pontos ativos. A semelhança entre eles pode não ter sido mera coincidência. Para os cientistas, estes fatos indicam a existência de um ancestral comum. Os ossos dos membros inferiores do crocodilo e a nadadeira da baleia bicuda são os mesmos do braço e mão de um homem; diferem no comprimento, é claro, mas todos os ossos existem. Essas são só algumas referências que apoiam o raciocínio de Salomão. Sim, nós somos animais. Mas só no físico. (Para entender a questão mais a fundo recomendo este estudo aqui, realizado pelo Pr. Walter Santos Baptista). E para entender melhor isso, vejamos as citações abaixo:

“E Deus disse: Façamos o homem (em hebraico, Adam)(...)” (Gn. 1:26)

“E então, formou Deus o homem (em hebraico, Adam)(...)” (Gn. :2,7)

Aqui, a Bíblia nos ensina que Adão é “feito” e “formado”. Nós até sabemos a matéria-prima utilizada para sua produção. “E então, formou Deus o homem do pó da terra(...)” (Gên. 2:7), isso é inegável. Mas se analisarmos paralelamente duas passagens da Bíblia: “No início, criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1:1) e “porque em seis dias Deus fez os céus e terra(...)” (Êxodo 31:17), constatamos que enquanto o uso bíblico da palavra “criação” sugere uma ação instantânea de Deus, “fazer” na linguagem bíblica é um processo que exige tanto matéria quanto tempo, como está dito: “porque em seis dias(...)”. Com o passar do tempo, algo foi criado – Adão, mas este ser não estava completo. Faltava-lhe receber a alma da vida humana. Se a formação e o desenvolvimento do homem – de Adão – foi um processo que durou um milésimo de segundo ou milhões de anos, não é algo que a Bíblia deixe claro. Porém, alguns versos podem nos dar uma pista, ou até talvez a resposta definitiva...

Voltando a nossa atenção para a literatura hebraica, nos deparamos com o Talmud, que é um código antigo de discussões rabínicas, que apesar de ser extremista, possui algum conteúdo histórico no que diz respeito á origem dos hebreus. Acontece que o Talmud, em (Eruvim 18A) se detém sobre o nascimento de Sete, terceiro filho de Adão e Eva, analisando por que a Bíblia relata duas vezes seu nascimento.

“E tornou Adão a conhecer sua mulher, e ela deu a luz um filho a quem chamou Sete” (Gênesis 4:25).
“E viveu Adão 130 anos, e ele teve um filho à sua imagem e semelhança. Ele o chamou de Sete” (Gênesis 5:3).

Segundo o Talmud, estes dois versos revelam que, após o assassinato de Abel por Caim, Adão e Eva se separaram maritalmente por 130 anos, e somente então Adão deitou-se “novamente” com Eva. Durante estes 130 anos, Adão procriou filhos com outros seres, não com Eva. O Radak comenta que esses filhos eram, de fato, crianças. Faltava-lhes, no entanto, a neshamá, a alma, para torná-los seres humanos. Maimônides (Guia 1:7), baseado em Eruvim e no Zohar, descreve estas crianças como sendo seres humanos em forma e inteligência, mas nada humanos em espiritualidade.

Se realmente Adão procriou com outros hominídeos ou não como diz o Talmud, não há como ter certeza. No entanto, o fato de ter um registro como esse, com esse aspecto, na literatura judaica, indica que a crença original hebraica a respeito de Adão não diz que ele foi um boneco feito de barro, mas sim um hominídeo que passou a ter vida espiritual por um sopro de Deus, após ter sido formado totalmente.


Nachmânides concentra-se num prefixo supérfluo, lamed, em hebraico, que transmite a idéia de transformação através de uma ação externa. No caso, o insuflar da alma. Assim, “... e soprou por suas narinas a neshamá da vida e Adão transformou-se em uma alma viva”.

Segundo o comentário de Nachmânides, um dos maiores sábios e cabalistas no que diz respeito á questão, a preposição “em” é usada para indicar uma mudança na essência da personalidade e “pode ser que o verso esteja afirmando que Adão era um ser vivo completo e a neshamá o transformou em outro homem”. Sim! Outro homem! De acordo com Nachmânides, havia um homem antes da criação da neshamá, mas aquele ser hominídio não era exatamente humano, o que não tira Adão e Eva da privilegiada posição de primeiros humanos.

Onkelos, outro estudioso, resumiu tudo isso, 400 anos antes do Talmud e mil anos antes de Nachmânides. A expressão nefesh chayá, uma alma viva, aparece três vezes nesta parte da Bíblia: para animais que vivem na água (Gên. 1:20), para animais que vivem sobre a terra (Gên. 1:24) e para humanos como “... em uma alma viva” (Gên. 2:7). Nos primeiros dois casos, Onkelos traduz o termo literalmente, “uma alma viva”. Mas para os seres humanos, por causa da preposição “em”, Onkelos traduz o termo como “e Adão transformou-se em um espírito falante” (Nota: uma minoria de teólogos cristãos fizeram observar essa preposição, presente apenas na bíblia original).

A capacidade de se comunicar espiritualmente é o que faz os homens serem diferentes de todos os outros animais. Não é nossa força, nem nossa inteligência. Mas a nossa espiritualidade! A fala é, nos homens, o elo entre os aspectos físicos e espirituais da existência. É, então, a neshamá, o Sopro Divino que faz esta ligação entre o material e o espiritual. Hominídios, com feições humanas, co-existiram e precederam Adão. Os antigos comentaristas bíblicos estavam cientes dessa realidade. A descoberta de seus fósseis, então, não constitui surpresa para a Bíblia. Na definição bíblica, um homem é um animal, um hominídio (Eclesiastes 3,20) no qual foi insuflada a alma criada, a neshamá, o Ruah.

Isso indica também, por consequência, que a formação "do pó da terra ao homem" refere-se á evolução biológica, onde Deus teria a conduzido para culminar não só no homem mas também em toda a biodiversidade atual. Em Eclesiastes 3,20 há a citação de que todos os seres vivos e o homem vieram do pó e voltam á ele, sendo que o "pó" dessa passagem em hebraico á Adamah, que significa ou barro ou partículas do solo (independente de qual seja o sentido do Adamah bíblico, tem-se evidência científica de que o primeiro organismo surgiu no lodo submarino, o que explica o fato dos seres vivos possuírem os mesmos nutrientes do solo e se encaixa com a Bíblia).

Além disso, como vemos na Bíblia, o Homem só tornou-se á imagem e semelhança com o Sopro Divino e, ao que indica o texto bíblico, Adão dantes era imortal e a consequência de seu pecado, o pecado original, o fez perder essa dádiva. Esse fato é reafirmado de forma inegável no capítulo 5 da Carta aos Romanos, escrita pelo apóstolo Paulo (Leia Rm 5,12 e Rm 5,14). A partir daí, todo ser humano herdou, inclusive geneticamente, a natureza pecaminosa de Adão, sendo o sacríficio de Cristo pela humanidade a única forma de remediar a situação.

Em relação á imortalidade de Adão, no momento nós não possuímos (e talvez nem iremos possuir) evidências científicas da imortalidade que teria tido o primeiro casal e que foi perdida com a primeira desobediência. Isso porque tal imortalidade seria uma dádiva oriunda do sopro divino, o Neshamah ou Ruah, que é de origem espiritual e, portanto, transcede o campo das ciências do mundo físico.

Contudo, ainda nos resta duas questões para se analisar: Eva teria sido feita da costela da mulher? Existe evidência no registro fóssil de que em dado momento os hominídeos teriam se tornado á Imagem e Semelhança de Deus? É justamente disso que trataremos na parte 2 desse estudo. Aguarde.



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